Confissões de Docente
Kiko Pietro
Dedicatória
Ana Paula e Pietra,
amores eternos.
Apresentação
As poesias dessa publicação versam sobre a educação em suas muitas
formas. A inspiração vem da própria experiência e a forma é resultante dos diversos
conhecimentos adquiridos ao longo do tempo.
“Confissões de Docente” dialoga com algumas facetas perceptíveis no
cotidiano de um professor, a forma e a estética de alguns conteúdos didáticos.
Esse docente que utiliza diversas ferramentas a fim de construir
conhecimento partindo sempre da própria vivência com os educandos.
As dez poesias foram escritas em momentos que transitam entre 2012 e 2025.
Publicação
online independente em Outubro de 2024, SP (atualizado em Abril de 2025)
Título: Confissões de Docente
Poesias: Kiko Pietro
Revisão: Ana Paula Lucinari
Ilustração de capa: Pietra Lucinari
Poesias
1. Na sala com as mariposas
2. Dois dentinhos
3. Leia antes do mundo acabar
4. Trinta
5. Educar é transgredir
6. Telas
7. Sobre ensinar e aprender
8. O antes, o agora e o distante
9. Além do metrô
10. Reflexões
1
Na sala
com as mariposas
Hoje foi diferente
Alguém me ofereceu um café
E um lugar pra sentar
Caminhei e atravessei na faixa
Tropecei e engoli a fumaça
Mas sentei ao lado do meu amor
Conversamos um bom bocado
E o bom de não termos cunhados
É que dividimos nossos segredos só pra nós
Uns tem hábitos noturnos
Outros flácidos noutros turnos
Desde a Lua até Saturno
Sem fim
Mariposas, casadas
Solteiras, ficantes
São tias, amigas
Amantes, estudantes
São mães, são avós
São filhas, são gestantes
São esposas, mal amadas
Largadas, perdidas
Voando desesperadamente
Em volta das lamparinas
E tentando ensinar
Meninos e meninas
E às vezes são intensas
Ferrenhas e indomáveis
Feministas, mães solos
São como querem
São como podem
Apoiem
Mas alguma delas
Por quase toda vida
Trancada num casulo
Depois de tanto persistir
Finalmente nasce pra o mundo
Só pra girar em volta de alguma luz
E descansar na sombra que lhe seduz
Hoje eu tomei um café
Na sala com as mariposas
2
Dois dentinhos
Sei que ainda é cedo
Então eu vou dizer
Você já é capaz e pode me ouvir
O mundo é cruel, mas a vida é bela
Existem as bruxas e as cinderelas
Às vezes o dia escurece demais
E às vezes é noite do lado de trás
Tudo é linguagem, é imaginação
Raiz da razão e emoção, porque não?
Tudo é muito simples, tipo código binário
Segredo de armário, foto e vídeo do primário
Segredos do universo
Que cabem na palma da mão
Ideologias que guerreiam
Como um dragão e um anão
E a luta de classes e na classe da escola
Enquanto poucos fazem o bem
E tantos vivem de esmolas
Tá ficando complicado
Não fique com medo
É comum sentir assim
Sede, fome e desejos
Mas talvez seja muito cedo
Pra se preocupar tanto assim
Pois você só tem dois dentinhos
O melhor é ir dormir
Todas as perguntas têm respostas
Mas nem sempre são aquelas que queremos
E o desejo de continuar buscando
Nos ensina a continuar crescendo
Como seus dentes que um dia cairão
E outros novos ainda nascerão
Mas se não cuidar, vão se corroer
E se estragar, ainda dá pra mastigar
Com dentadura
3
Leia antes
do mundo
acabar
Começou com um beijo na esquina
Uns dois anos depois nasceu uma menina
Logo ela completará três anos de idade
Quanta coisa mudou desde então nessa cidade
Queria construir um mundo melhor pra ela
Tornei-me professor
E acreditei que a vida podia ser bela
Em uma sala de aula com quarenta alunos
Talvez salve quatro ou cinco
Infelizmente o restante
Caminha rumo ao abismo
A minha fé saiu dos templos e foi para as ruas
A minha revelação é o resultado das urnas
Os meus discípulos são os que aprendem
Com meus erros
E a minha cruz é a salvação
Que desconheço
A minha geração já vive o fim do mundo
Decadência do sistema de educação
Nesse governo imundo
O que me resta é ensinar a minha filha
Que estamos todos condenados nesta ilha
Espero que um dia ela encontre alguém
Pra beijar
Alguém dentre os quatro ou cinco
Que salvei
E juntos tenham força e sabedoria
Pra lutar
Pela liberdade que um dia
Eu também lutei
Filha, sua mãe e eu um dia ficaremos
Velhos e fracos
Mas nunca desista da vida
Analise bem todos os fatos
Tenha fé, persista, renuncie
Denuncie e lute
Use a nossa experiência
Continue firme
Mantenha a RESISTÊNCIA
4
Trinta
Eu nasci branco, mas nasci pobre
No Morro do Dendê, não
foi num bairro nobre
Eu insisti, batalhei,
não foi fácil não
Larguei a escola e
trabalhei, aprendi violão
Vendi frutas nas ruas,
me apeguei na missão
Precisava de uma
causa, de uma razão
Não é possível
derrotar o inimigo
Sem antes conhecer
suas falhas meu amigo
Reconhecer que o
sistema te engole
Te exclui, te apaga,
te anula ou te aprisiona
Faz você acreditar que
nunca pode
Sonhar com liberdade,
mas isso é para os fortes
Quando tinha oito anos
vi uma cara morrer
Na frente do meu
portão e aprendi a lição
Não adianta correr, ou
é bala ou facão
Não importa de onde
vem, morte certa irmão
O tempo passou e eu
sobrevivi
Depois dos trinta anos
consegui prosseguir
Fiz faculdade e me
tornei professor
Fiz trabalho
voluntário
Sempre com muito amor
Aprendi que pra fugir
da estatística
Que diz que você morre
antes de fazer trinta
Você tem que batalhar
e estudar pra vencer
Compreender que muda o
mundo
Mudando você
Não faça parte da
estatística
Corra pelo certo
Não fuja
Não desista
Não acredite nas
mentiras
Faça sua parte
Resista
Sobreviva
Viver não é um sonho
Acorda e realiza
5
Educar é
transgredir
Pra início de conversa
Deixa eu me apresentar
Sou professor de história e geografia
Mas também sou educador social
E estudei pedagogia
Na história ensino o ser
Na geografia ensino o mundo
No social ensino a viver
E a pedagogia é meu escudo
Num mundo injusto e intolerante
Ensino a igualdade
Numa sociedade fundada a base de mentiras
Proponho verdades
Numa escola sem partido
Insisto na liberdade
E se ensinar assim é transgredir
Sei que estou no caminho da verdade
Pois educar é um ato de rebeldia
A educação liberta
Liberta o pensamento e nos faz enxergar
Que estamos todos na caverna
Mas o professor viu a luz e desejou mais
Saiu da caverna e quis levar consigo os demais
Como disse o profeta, no final dos tempos
O amor aos poucos jaz
Querem tirar a cadeira do patrono da educação
Pois querem que a pedagogia do oprimido
Não tenha mais razão
O cara mora na favela
Acha que é rico porque tem carrão
E é esse tipo de coisa que fortalece a alienação
Sou contra a homofobia
A xenofobia e o racismo
Contra o capacitismo e o etarismo
A desigualdade social, o fascismo
E tantos outros ismos
Bancada evangélica é cambada
De gente que se diz santa
Mas é o tipo de gente que vê maldade
Até em criança
Vê maldade na arte em geral
Inclusive na dança
E é fácil compreender isso
Sob a luz da palavra da verdade
Porque a maldade não está nas coisas
Mas está nos olhos de quem vê
E não há nada mais diabólico
Do que um coração cheio de maldade
Eu estudei muito pra ser quem eu sou
E ainda assim, pra muitos eu sou
Menos que nada
Mas sou um educador
Que acima de tudo sente a dor
E mesmo não tendo
O reconhecimento que deveria
Continuo minha luta a cada dia sem vacilar
Pois a maior lição que quero deixar
É sobre como amar
Se educar assim é transgredir e é crime
E ensino sobre a liberdade
Contra um sistema que oprime
Então já me considero preso ou executado
Pois sou um educador, sou mais que culpado
Encerro por aqui esses versos de protesto
Desejando que minha filha entenda
Pelo que lutei
Compreenda que a liberdade às vezes
É contra a lei
Entenda que viver a verdade
É insistir no submundo
Pois o mundo já está dominado
Pelo novo império
Mas ainda podemos escolher
Entre ser livres ou servos
Pra quem é ateu, agnóstico
Ou de alguma outra religião
Me diz aí, contra esse império
Essa nova Roma, como agiria?
E pra você que se considera um bom cristão
Me diz então, o que Jesus faria?
Eu tenho uma hipótese:
Ele educaria
6
Telas
Sentados em fileiras ou em roda
Agora não mais importa
Sem portas, paredes ou filas
Uma janela mágica
Portal pra desvendar o infinito
Ausentes de corpo
Presentes de alma
Também estou aqui
No meu peito o motor não para
Às vezes desacelera
Mas é quando dispara que penso
Tenso, como pedra inquebrável
E esmiuçada ao mesmo tempo
Areia escorrendo por entre meus dedos
Desejos se esvaindo nos meus rabiscos
Planos, projetos, restos de conceitos
Importante agora é crescer, continuar
Velejar para terras longes
Conhecer casas novas
Explorar paredes cheias
De buracos negros
Sedentos de luz
Pendurar os retratos
Que me desabitam
Para colorir
Manhãs
7
Sobre ensinar
e aprender
Descobri que desde cedo
Tudo que aprendia, queria ensinar
Percebi que todo conhecimento
Poderia funcionar como cimento
Construindo estruturas complexas
Apreendendo culturas, que perplexas
Lutavam pra coexistir
A lição é jamais desistir
Um beco, favela
Nos olhos, remela
Acorda bem cedo
Ralando joelho
A vida não tem alunos
Cada um tem sua luz
Põe a alma na direção
E o foco no que te conduz
Tudo pode ser ferramenta
Tem muita coisa entre oito e oitenta
Dá pra ensinar com arte
Dá pra ensinar com imagens e textos
Mas precisa ter consciência de classe
Tem que ter contexto
Confesso que me perco nos detalhes
Mas esse é o menor dos males
Todo dia lê
Todo dia estuda
Dia de ensinar
Também é dia de luta
É hora de defender uma tese
Escrever sobre ensinar e aprender
E entender que nunca tem fim
Dia dos professores
Também é dia de dores
Flores são bem vindas
E também amores
Há muito que ensinar
Mesmo que seja mais do mesmo
Não dá pra acertar todas
Mas dá pra aprender com os erros
Professor bom é aquele que nunca está pronto
Está sempre buscando ser melhor que ontem
Indignado com as desigualdades
Inconformado com as injustiças sociais
Usando até o lúdico pra explicar o real
Sempre a favor dos diferentes
Pra que todos tenham direitos iguais
Ensinar não é ditado
Isso é coisa do passado
Ensinar é amar
E ao ensinar
Sentir-se amado
8
O antes,
o agora e
o distante
Durante um breve instante
Um retrato na estante
Desperta uma memória
Ainda que distante
De outro tempo
Que já não existe mais
Mas ainda assim sobrevive
Nos dias atuais
Marcas, traumas, lembranças
Lutas, perdas, esperança
Em algum momento do instante
Aquela fotografia na estante
Aponta para outro lado
A incerteza, não do passado
Mas dos tempos que ainda virão
Cenas que já se repetem
Ainda se repetirão?
Depende do próximo passo
Do meu pensamento adiante
Pensar que o momento seguinte
Não é um minuto distante
Já foi, já passou nesse instante
Enquanto a imagem na estante
Está entre as memórias,
Os dias atuais cheios de história
E os dias que ainda não são,
Eu observo e aprendo
Apreendo
Prendo nos meus olhos
As miragens que seduzem
Que traduzem as coisas
Que me mostram o mundo
Não do jeito que quero ver
Mas como ele quer se mostrar
Eu resisto
Ainda que por um instante
Desejo mudanças
Mas percebo que nem antes
Nem mesmo agora
Nem tão distante
As memórias naquela estante
Estão acontecendo agora
A lembrança do passado
Ultrapassado e com tantos fardos
A miragem do futuro
Que ainda nem existe
Ou não existia há um minuto
O antes, o agora e o distante
Tudo no mesmo instante
Talvez seja hora
De trocar o retrato na estante
Trocar até mesmo de estante
Mudar de casa
(Re)significar memórias
Transformar o ambiente
Permitir que a natureza transforme
Ou provocar essa mudança
Mas não amanhã
Que tal nesse instante?
Porque o antes já se foi
O agora já está indo
E o distante já chegou
.
9
Além do metrô
Encontros, despedidas e reencontros
Esse poderia ser o resumo da nossa história
Mas como colocar em palavras
Cada uma das nossas trajetórias?
Conversas, piadas e lições
Palavras, atitudes e ações
Emoções
Cada momento
Cada lamento
Cada pensamento antes das provas
Escrever, resumir, copiar
Copia e cola, copia e cola
CONTA! Conta, conta, conta
CANTA, encanta
PRONUNCIA
Anuncia o que vem
A próxima página do nosso livro
Qual será a última lição?
Estuda, estuda, estuda, estuda, TRABALHA
Mas nunca se esqueça de VIVER
Sorrisos também são importantes
E também os silêncios
Encontros, despedidas e reencontros
Memória que já é saudade
Deixa as picuinhas e cultiva as amizades
Museu, fast food e pomba na cabeça
Cantar parabéns no trem, no centro da cidade
Encontros, despedidas e reencontros
Isso já deixou saudades
10
Reflexões
Estive pensando
Sobre o que falamos
Naquela manhã
Fiquei incomodado
Meio inconformado
Preciso dizer
Naquela manhã
Eu falei sobre sonhos
Mas também disse
Que nem sempre se realizam
Ainda mais pra quem
Não tem travesseiro
Não tem água encanada
Não tem luz, nem banheiro
Não tem escola, não tem comida
Não tem trabalho e nem dinheiro
Não tem casa, mora na rua
Situação de rua que fala né
Sem expectativa
Às vezes nem o pão de cada dia
Podia ser minha mãe
Podia ser minha filha
Pedindo comida na rua
Pra suportar mais um dia
Pra sobreviver mais uma noite
Nesse mundo frio e injusto
Não dá pra falar dessas coisas
E não sentir dor
Não dá pra imaginar uma cena dessas
E não sentir dó
Dó menor melódico
Eu usaria nessa triste canção
Mas dá um aperto no coração
Sentir essa aflição
Me desculpa
Cheguei assim do nada
Nem disse bom dia
Está na hora de começar
A aula de Geografia...
Kiko Pietro
História, Geografia, Artes e Poesia
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