sábado, 12 de outubro de 2024

Poesias

Confissões de Docente 

 



Kiko Pietro

 





Dedicatória

 

Ana Paula e Pietra,

amores eternos.

 

 

 

Apresentação

 

As poesias dessa publicação versam sobre a educação em suas muitas formas. A inspiração vem da própria experiência e a forma é resultante dos diversos conhecimentos adquiridos ao longo do tempo.

“Confissões de Docente” dialoga com algumas facetas perceptíveis no cotidiano de um professor, a forma e a estética de alguns conteúdos didáticos.

Esse docente que utiliza diversas ferramentas a fim de construir conhecimento partindo sempre da própria vivência com os educandos.

As dez poesias foram escritas em momentos que transitam entre 2012 e 2025.



 

Publicação online independente em Outubro de 2024, SP (atualizado em Abril de 2025)
Título: Confissões de Docente
Poesias: Kiko Pietro
Revisão: Ana Paula Lucinari
Ilustração de capa: Pietra Lucinari

 

 

 

Poesias

 

1. Na sala com as mariposas

2. Dois dentinhos

3. Leia antes do mundo acabar

4. Trinta

5. Educar é transgredir

6. Telas

7. Sobre ensinar e aprender

8. O antes, o agora e o distante

9. Além do metrô

10. Reflexões

 

 

 

1

Na sala

com as mariposas

 

Hoje foi diferente

Alguém me ofereceu um café

E um lugar pra sentar

Caminhei e atravessei na faixa

Tropecei e engoli a fumaça

Mas sentei ao lado do meu amor

 

Conversamos um bom bocado

E o bom de não termos cunhados

É que dividimos nossos segredos só pra nós

 

Uns tem hábitos noturnos

Outros flácidos noutros turnos

Desde a Lua até Saturno

Sem fim

 

Mariposas, casadas

Solteiras, ficantes

São tias, amigas

Amantes, estudantes

São mães, são avós

São filhas, são gestantes

São esposas, mal amadas

Largadas, perdidas

Voando desesperadamente

Em volta das lamparinas

E tentando ensinar

Meninos e meninas

E às vezes são intensas

Ferrenhas e indomáveis

Feministas, mães solos

São como querem

São como podem

Apoiem

 

Mas alguma delas

Por quase toda vida

Trancada num casulo

Depois de tanto persistir

Finalmente nasce pra o mundo

Só pra girar em volta de alguma luz

E descansar na sombra que lhe seduz

 

Hoje eu tomei um café

Na sala com as mariposas

 

 

2

Dois dentinhos

 

Sei que ainda é cedo

Então eu vou dizer

Você já é capaz e pode me ouvir

O mundo é cruel, mas a vida é bela

Existem as bruxas e as cinderelas

Às vezes o dia escurece demais

E às vezes é noite do lado de trás

 

Tudo é linguagem, é imaginação

Raiz da razão e emoção, porque não?

Tudo é muito simples, tipo código binário

Segredo de armário, foto e vídeo do primário

 

Segredos do universo

Que cabem na palma da mão

Ideologias que guerreiam

Como um dragão e um anão

E a luta de classes e na classe da escola

Enquanto poucos fazem o bem

E tantos vivem de esmolas

 

Tá ficando complicado

Não fique com medo

É comum sentir assim

Sede, fome e desejos

Mas talvez seja muito cedo

Pra se preocupar tanto assim

Pois você só tem dois dentinhos

O melhor é ir dormir

 

Todas as perguntas têm respostas

Mas nem sempre são aquelas que queremos

E o desejo de continuar buscando

Nos ensina a continuar crescendo

 

Como seus dentes que um dia cairão

E outros novos ainda nascerão

Mas se não cuidar, vão se corroer

E se estragar, ainda dá pra mastigar

Com dentadura

 

 

3

Leia antes

do mundo

acabar

Começou com um beijo na esquina

Uns dois anos depois nasceu uma menina

Logo ela completará três anos de idade

Quanta coisa mudou desde então nessa cidade

Queria construir um mundo melhor pra ela

Tornei-me professor

E acreditei que a vida podia ser bela

Em uma sala de aula com quarenta alunos

Talvez salve quatro ou cinco

Infelizmente o restante

Caminha rumo ao abismo

 

A minha fé saiu dos templos e foi para as ruas

A minha revelação é o resultado das urnas

Os meus discípulos são os que aprendem

Com meus erros

E a minha cruz é a salvação

Que desconheço

 

A minha geração já vive o fim do mundo

Decadência do sistema de educação

Nesse governo imundo

O que me resta é ensinar a minha filha

Que estamos todos condenados nesta ilha

Espero que um dia ela encontre alguém

Pra beijar

Alguém dentre os quatro ou cinco

Que salvei

E juntos tenham força e sabedoria

Pra lutar

Pela liberdade que um dia

Eu também lutei

 

Filha, sua mãe e eu um dia ficaremos

Velhos e fracos

Mas nunca desista da vida

Analise bem todos os fatos

Tenha fé, persista, renuncie

Denuncie e lute

Use a nossa experiência

Continue firme

Mantenha a RESISTÊNCIA


 

4

Trinta


Eu nasci branco, mas nasci pobre

No Morro do Dendê, não foi num bairro nobre

Eu insisti, batalhei, não foi fácil não

Larguei a escola e trabalhei, aprendi violão

Vendi frutas nas ruas, me apeguei na missão

Precisava de uma causa, de uma razão

Não é possível derrotar o inimigo

Sem antes conhecer suas falhas meu amigo

Reconhecer que o sistema te engole

Te exclui, te apaga, te anula ou te aprisiona

Faz você acreditar que nunca pode

Sonhar com liberdade, mas isso é para os fortes

 

Quando tinha oito anos vi uma cara morrer

Na frente do meu portão e aprendi a lição

Não adianta correr, ou é bala ou facão

Não importa de onde vem, morte certa irmão

O tempo passou e eu sobrevivi

Depois dos trinta anos consegui prosseguir

Fiz faculdade e me tornei professor

Fiz trabalho voluntário

Sempre com muito amor

Aprendi que pra fugir da estatística

Que diz que você morre antes de fazer trinta

Você tem que batalhar e estudar pra vencer

Compreender que muda o mundo

Mudando você

 

Não faça parte da estatística

Corra pelo certo

Não fuja

Não desista

Não acredite nas mentiras

Faça sua parte

Resista

Sobreviva

Viver não é um sonho

Acorda e realiza

 

5

Educar é

transgredir

Pra início de conversa

Deixa eu me apresentar

Sou professor de história e geografia

Mas também sou educador social

E estudei pedagogia

 

Na história ensino o ser

Na geografia ensino o mundo

No social ensino a viver

E a pedagogia é meu escudo

 

Num mundo injusto e intolerante

Ensino a igualdade

Numa sociedade fundada a base de mentiras

Proponho verdades

Numa escola sem partido

Insisto na liberdade

E se ensinar assim é transgredir

Sei que estou no caminho da verdade

Pois educar é um ato de rebeldia

A educação liberta

Liberta o pensamento e nos faz enxergar

Que estamos todos na caverna

Mas o professor viu a luz e desejou mais

Saiu da caverna e quis levar consigo os demais

Como disse o profeta, no final dos tempos

O amor aos poucos jaz

Querem tirar a cadeira do patrono da educação

Pois querem que a pedagogia do oprimido

Não tenha mais razão

 

O cara mora na favela

Acha que é rico porque tem carrão

E é esse tipo de coisa que fortalece a alienação

Sou contra a homofobia

A xenofobia e o racismo

Contra o capacitismo e o etarismo

A desigualdade social, o fascismo

E tantos outros ismos

Bancada evangélica é cambada

De gente que se diz santa

Mas é o tipo de gente que vê maldade

Até em criança

Vê maldade na arte em geral

Inclusive na dança

 

E é fácil compreender isso

Sob a luz da palavra da verdade

Porque a maldade não está nas coisas

Mas está nos olhos de quem vê

E não há nada mais diabólico

Do que um coração cheio de maldade

 

Eu estudei muito pra ser quem eu sou

E ainda assim, pra muitos eu sou

Menos que nada

Mas sou um educador

Que acima de tudo sente a dor

E mesmo não tendo

O reconhecimento que deveria

Continuo minha luta a cada dia sem vacilar

Pois a maior lição que quero deixar

É sobre como amar

 

Se educar assim é transgredir e é crime

E ensino sobre a liberdade

Contra um sistema que oprime

Então já me considero preso ou executado

Pois sou um educador, sou mais que culpado

 

Encerro por aqui esses versos de protesto

Desejando que minha filha entenda

Pelo que lutei

Compreenda que a liberdade às vezes

É contra a lei

Entenda que viver a verdade

É insistir no submundo

Pois o mundo já está dominado

Pelo novo império

Mas ainda podemos escolher

Entre ser livres ou servos

 

Pra quem é ateu, agnóstico

Ou de alguma outra religião

Me diz aí, contra esse império

Essa nova Roma, como agiria?

E pra você que se considera um bom cristão

Me diz então, o que Jesus faria?

Eu tenho uma hipótese:

Ele educaria

 

 

6

Telas

 

Sentados em fileiras ou em roda

Agora não mais importa

Sem portas, paredes ou filas

Uma janela mágica

Portal pra desvendar o infinito

Ausentes de corpo

Presentes de alma

Também estou aqui

No meu peito o motor não para

Às vezes desacelera

Mas é quando dispara que penso

Tenso, como pedra inquebrável

E esmiuçada ao mesmo tempo

Areia escorrendo por entre meus dedos

Desejos se esvaindo nos meus rabiscos

Planos, projetos, restos de conceitos

Importante agora é crescer, continuar

Velejar para terras longes

Conhecer casas novas

Explorar paredes cheias

De buracos negros

Sedentos de luz

Pendurar os retratos

Que me desabitam

Para colorir

Manhãs

 

 

7

Sobre ensinar

e aprender

 

Descobri que desde cedo

Tudo que aprendia, queria ensinar

Percebi que todo conhecimento

Poderia funcionar como cimento

Construindo estruturas complexas

Apreendendo culturas, que perplexas

Lutavam pra coexistir

A lição é jamais desistir

 

Um beco, favela

Nos olhos, remela

Acorda bem cedo

Ralando joelho

A vida não tem alunos

Cada um tem sua luz

Põe a alma na direção

E o foco no que te conduz

 

Tudo pode ser ferramenta

Tem muita coisa entre oito e oitenta

Dá pra ensinar com arte

Dá pra ensinar com imagens e textos

Mas precisa ter consciência de classe

Tem que ter contexto

Confesso que me perco nos detalhes

Mas esse é o menor dos males

 

Todo dia lê

Todo dia estuda

Dia de ensinar

Também é dia de luta

É hora de defender uma tese

Escrever sobre ensinar e aprender

E entender que nunca tem fim

 

Dia dos professores

Também é dia de dores

Flores são bem vindas

E também amores

Há muito que ensinar

Mesmo que seja mais do mesmo

Não dá pra acertar todas

Mas dá pra aprender com os erros

 

Professor bom é aquele que nunca está pronto

Está sempre buscando ser melhor que ontem

Indignado com as desigualdades

Inconformado com as injustiças sociais

Usando até o lúdico pra explicar o real

Sempre a favor dos diferentes

Pra que todos tenham direitos iguais

 

Ensinar não é ditado

Isso é coisa do passado

Ensinar é amar

E ao ensinar

Sentir-se amado

 

 

8

O antes,

o agora e

o distante

 

Durante um breve instante

Um retrato na estante

Desperta uma memória

Ainda que distante

De outro tempo

Que já não existe mais

Mas ainda assim sobrevive

Nos dias atuais

Marcas, traumas, lembranças

Lutas, perdas, esperança

Em algum momento do instante

Aquela fotografia na estante

Aponta para outro lado

A incerteza, não do passado

Mas dos tempos que ainda virão

Cenas que já se repetem

Ainda se repetirão?

Depende do próximo passo

Do meu pensamento adiante

Pensar que o momento seguinte

Não é um minuto distante

Já foi, já passou nesse instante

 

Enquanto a imagem na estante

Está entre as memórias,

Os dias atuais cheios de história

E os dias que ainda não são,

Eu observo e aprendo

Apreendo

Prendo nos meus olhos

As miragens que seduzem

Que traduzem as coisas

Que me mostram o mundo

Não do jeito que quero ver

Mas como ele quer se mostrar

Eu resisto

 

Ainda que por um instante

Desejo mudanças

 

Mas percebo que nem antes

Nem mesmo agora

Nem tão distante

As memórias naquela estante

Estão acontecendo agora

A lembrança do passado

Ultrapassado e com tantos fardos

A miragem do futuro

Que ainda nem existe

Ou não existia há um minuto

O antes, o agora e o distante

Tudo no mesmo instante

Talvez seja hora

De trocar o retrato na estante

Trocar até mesmo de estante

Mudar de casa

(Re)significar memórias

Transformar o ambiente

Permitir que a natureza transforme

Ou provocar essa mudança

Mas não amanhã

Que tal nesse instante?

Porque o antes já se foi

O agora já está indo

E o distante já chegou

.

 

 

9

Além do metrô

 

Encontros, despedidas e reencontros

Esse poderia ser o resumo da nossa história

Mas como colocar em palavras

Cada uma das nossas trajetórias?

 

Conversas, piadas e lições

Palavras, atitudes e ações

Emoções

Cada momento

Cada lamento

Cada pensamento antes das provas

Escrever, resumir, copiar

 

Copia e cola, copia e cola

CONTA! Conta, conta, conta

CANTA, encanta

PRONUNCIA

Anuncia o que vem

A próxima página do nosso livro

Qual será a última lição?

 

Estuda, estuda, estuda, estuda, TRABALHA

Mas nunca se esqueça de VIVER

Sorrisos também são importantes

E também os silêncios

 

Encontros, despedidas e reencontros

Memória que já é saudade

Deixa as picuinhas e cultiva as amizades

Museu, fast food e pomba na cabeça

Cantar parabéns no trem, no centro da cidade

Encontros, despedidas e reencontros

Isso já deixou saudades

 

 

10

Reflexões

 

Estive pensando

Sobre o que falamos

Naquela manhã

Fiquei incomodado

Meio inconformado

Preciso dizer

Naquela manhã

Eu falei sobre sonhos

Mas também disse

Que nem sempre se realizam

Ainda mais pra quem

Não tem travesseiro

Não tem água encanada

Não tem luz, nem banheiro

Não tem escola, não tem comida

Não tem trabalho e nem dinheiro

Não tem casa, mora na rua

Situação de rua que fala né

Sem expectativa

Às vezes nem o pão de cada dia

Podia ser minha mãe

Podia ser minha filha

Pedindo comida na rua

Pra suportar mais um dia

Pra sobreviver mais uma noite

Nesse mundo frio e injusto

Não dá pra falar dessas coisas

E não sentir dor

Não dá pra imaginar uma cena dessas

E não sentir dó

Dó menor melódico

Eu usaria nessa triste canção

Mas dá um aperto no coração

Sentir essa aflição

Me desculpa

Cheguei assim do nada

Nem disse bom dia

Está na hora de começar

A aula de Geografia...

 

 

 

Kiko Pietro

História, Geografia, Artes e Poesia

 

Watts App: 11 98363-8275

E-mail: francispietro@gmail.com

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